Sobre comidas e amores

Minha avó materna era cozinheira de mão cheia. Comida comprada pronta pra ela era pecado mortal; ofensa das grandes era entrar em sua casa e sair sem ter provado, ao menos, um lanchinho.

Em minha casa, por mais de 20 anos, nunca entrou macarrão de pacote: toda semana vinha a encomenda da casa de minha avó, massa fresca, feita em casa, da melhor qualidade. O canelone era antológico: massa fina, delicada, artesanalmente enrolada em presunto e queijo que derretiam ao corte, molho de tomate caseiro e farto, para comer as sobras com pão. Definição em uma palavra? Divino.

E tinha também os pastéis. Ah, os pastéis… Ela fazia a massa em casa. Depois os cortava num tamanho menorzinho, tipo aperitivo. O recheio? Queijo minas fresco temperadinho com orégano. Impossível comer um só. E tinha também a carne assada com batatas, o rocambole de doce-de-leite, os brigadeiros, a torta de chocolate!

O meu outro avô, pai do meu pai, dizia que sonho de infância era ser neto da D. Elisa. E meu pai, pouco antes de partir, teve como um de seus últimos desejos um prato de fetuccini feito por ela. 

Aniversários na casa dela eram uma perdição. O melhor mesmo era jejuar nos dois dias que antecediam a festa só para conseguir provar todas as tentações. Minha avó, tenho certeza, foi a precursora da lembrancinha das festas de aniversário: ninguém saía da sua casa sem duas marmitinhas, uma forrada de salgados, outra de docinhos. Tudo feito por ela.

Dirão as feministas de carteirinha que minha avó era uma mulher do século passado, que só cozinhava porque não teve oportunidade para fazer outra coisa na vida. Nada tão equivocado.

Verdade sim que minha avó, assim como todas as mulheres de sua geração, não pôde estudar, não pôde trabalhar, casou-se muito cedo, teve filhos, viveu para a família. Mas a forma como ela cozinhava passava longe da obrigação, era muito mais do de um simples cuidar. Sua cozinha era um ato de amor.

Dela herdei o gosto por panelas e fogão. Cozinhar requer algum talento, mas não só. Cozinhar requer entrega, cozinhar implica paixão. Selecionar os ingredientes, separa-los, combinar sabores, definir quantidades, escolher temperos, aprender técnicas e também inventa-las é trabalho para a alma. Alimentar o outro é zelar pela sua primeira e última necessidade: sem comida morremos.

Saciar o outro de sua mais primitiva necessidade é verdadeiramente mais prazeroso do que saciar a própria fome. Cozinhar é doação e quem doa sempre ganha mais do que quem recebe. Quem ama, cozinha!

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Kamila
Kamila

A Autora Sou Kamila, 33 anos, formada em Turismo e Técnico em Informática na ETEC. Conheci o mundo dos blogs em 2002. Na época os blogs eram mais para uso pessoal, quase um diário. Além de escrever, também era eu quem criava os layouts (mais conhecidos como templates) e toda a parte visual do blog, porém não achei sustentável continuar com um “diário” virtual. Sou apaixonada pelas cinco artes.

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