Cinderela Paulistana

Cinderela acorda sobressaltada com o som do despertador. Levanta-se, dirige-se ao seu banheiro de mármore impecavelmente branco e entra logo debaixo do chuveiro. Enquanto toma seu banho, repassa mentalmente todos os compromissos do dia: reunião com os acionistas logo às 9:00h, entrevista com o pessoal do Estado de São Paulo sobre a aquisição de uma Mineradora na região do Triângulo-Mineiro às 11:00h, almoço com o Diretor de Operações às 12:30h, reunião com os Gerentes Regionais às 14:30h, entrevista com os candidatos finalistas à vaga de Gerente de Tecnologia da Informação às 16:00h. Deve sobrar algum tempo no final da tarde para terminar o relatório sobre o Planejamento Estratégico para o próximo ano fiscal. 

Se tudo correr bem, às 19:00h conseguirá chegar ao “happy hour” sagrado de toda quinta-feira com suas amigas do MBA. Sagrado até certo ponto, já que há três semanas não consegue aparecer. Amizades relativamente recentes, porém muito sólidas graças às inúmeras afinidades e interesses convergentes: todas solteiras, muitíssimo bem sucedidas, detentoras de altos cargos e invejáveis salários em grandes empresas e bancos na maior cidade da América Latina, todas entre 35 e 40 anos e todas completamente desesperadas para alterar seu status nas redes sociais para “em um relacionamento sério”.

Sim, Cinderela, que em setembro completará 38, anda às voltas com a difícil missão de encontrar um parceiro. Logo ela que sempre tirou as melhores notas no colégio, desde os tempos do Primário até o último ano do Colegial. Logo ela que passou em primeiro lugar no vestibular da Getúlio Vargas, causando despeito em todas as suas amigas da escola. Logo ela que cursou seu MBA em Stanford. Logo ela que teve todos os empregos que desejou, derrotando inúmeros candidatos do sexo masculino em cada processo seletivo de que participou. Nunca uma tarefa pareceu tão complexa para Cinderela.

Apressada, veste-se com a sobriedade que seu cargo exige: terninho de micro-fibra, camisa de seda e scarpins altíssimos. Corre até a copa e, enquanto dá uma passada de olhos pelas manchetes do jornal, toma seu suco verde que, dizem, acelera o metabolismo. Ingere uma pequena tapioca sem glúten e um copo de leite sem lactose, tudo preparado com esmero pela sua fada madrinha.

No trajeto até o escritório, enquanto dirige seu Audi Q5 numa velocidade que não ultrapassa os 15km/h dada a quantidade exorbitante de veículos que trafegam pelas ruas de São Paulo, escuta uma aula do curso de mandarim que resolveu começar esse ano. Afinal, é sempre importante adicionar algo novo a seu curriculum.

No escritório, tudo parece conspirar a favor de Cinderela. Suas reuniões, apesar de tensas, sempre terminam da maneira planejada. Ela parece ter sempre as respostas certas para as perguntas mais capciosas, as ideias mais coerentes para solucionar os entraves mais delicados. É uma estrategista e uma líder de primeira qualidade.

Por fim, vencida a batalha daquele expediente, desliga seu notebook e insere alguns documentos numa pasta plástica que deixa numa bandeja sobre sua mesa. Tranca as gavetas e pega sua bolsa. Despede-se da secretária, que aguarda com disfarçada ansiedade a sua saída, na imponente ante-sala que dá acesso ao seu escritório e dá um pulo até a “toilete” onde retoca sua maquiagem, carregando no rímel e no batom que agora é o vermelho.

Vai contar para as meninas que agendou um horário para a próxima semana na clínica de reprodução humana, para saber sobre os procedimentos de congelamento de óvulos. Sim, ela é uma mulher precavida e logo logo completará 38. Não vai correr o risco de encontrar um companheiro quando for tarde demais. Deus a livre de ficar parada esperando a carruagem virar abóbora.

Seus últimos encontros não passaram de flertes e passeios, jantares e esticadas, cinemas e baladas, mas nada que nem de longe pudesse ser chamado de compromisso. Seu último relacionamento sério terminou há dois anos com a velha desculpa de “não sou bom o bastante pra você”, seguida da descoberta da traição.

Mas claro, ela acalenta o sonho de ser mãe. Nem precisa de pedido de casamento e sapatinho de cristal. Nem precisa de igreja e lua-de-mel. Pode ser apenas juntar as escovas de dente. Quer apenas um companheiro, um amigo, um amor. Alguém com quem compartilhar alegrias e tristezas. Alguém com quem dividir a casa, a rotina, a cama, a vida. Alguém pra acreditar e respeitar. Alguém por quem torcer. Alguém por quem esperar. Quer formar uma família. Qual não deve ser a grandeza inexplicável de ter uma vida crescendo dentro de si. Sentir uma pessoazinha se mexendo dentro dela, na medida em que seu ventre se expande. Ver um serzinho sair de dentro dela, alguém com seus traços físicos e também os do seu amor…

E é envolta nesses pensamentos que Cinderela chega no bar, onde suas amigas provavelmente já a aguardam, como de costume, todas as quintas-feiras, para mais uma vez dar início a sua incessante busca pelo Príncipe Encantado.

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Kamila
Kamila

A Autora Sou Kamila, 33 anos, formada em Turismo e Técnico em Informática na ETEC. Conheci o mundo dos blogs em 2002. Na época os blogs eram mais para uso pessoal, quase um diário. Além de escrever, também era eu quem criava os layouts (mais conhecidos como templates) e toda a parte visual do blog, porém não achei sustentável continuar com um “diário” virtual. Sou apaixonada pelas cinco artes.

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